EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS DA NOVA ÁGUIA. VER LISTA ABAIXO.
Adira ao MIL: envie e-mail para adesao@movimentolusofono.org (indique a área de residência).
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Como é sabido, a Revista A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:
- Primeiro número (1º semestre de 2008):
A ideia de Pátria: sua actualidade.
- Segundo número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia
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- Terceiro número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte
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- Quarto número (2º semestre de 2009):
Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- Quinto número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje (recepção de textos até ao final do presente semestre).


A Revista resulta de uma parceria entre a Editora Zéfiro, a Associação Marânus/Teixeira de Pascoaes, nossa sede a Norte, e a Associação Agostinho da Silva, nossa sede a Sul (Rua do Jasmim, 11, 2º andar – 1200-228 Lisboa; e-mail:

agostinhodasilva@mail.pt ; Tel.: 213422783 / 967044286; http://www.agostinhodasilva.pt/).

Entretanto, criámos também um Movimento cultural e cívico, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO, a que poderá aderir, caso se reconheça na nossa
Declaração de Princípios e Objectivos.

Para tal, envie um mail: adesao@movimentolusofono.org.
Indicar: nome, e-mail e área de residência.

Para outros assuntos: geral@movimentolusofono.org.

E-mail do Blogue e da Revista: novaaguia@gmail.com.

Nº3: PRÓXIMOS LANÇAMENTOS

03.04.09 - 16h00: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
04.04.09 - 16h00: Biblioteca Municipal de Torres Vedras
14.04.09 - 10h30: Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (Telheiras)
15.04.09 - 12h00: Câmara Municipal de Fortaleza
15.04.09 - 19h30: Loja Rosa-Cruz Amorc (Lisboa)
17.04.09 - 14h00: Universidade de Aveiro
17.04.09 - 18h00: Livraria Bertrand (Fórum Aveiro)
22.04.09 - 18h00: New School University (Nova Iorque)
28.04.09 - 21h30: Ateneu Comercial do Porto
04.05.09 - 14h30: Escola Superior de Educação de Setúbal
06.05.09 - 18h00: União Brasileira de Escritores de Pernambuco
09.05.09 - 15h00: Biblioteca Municipal de Sesimbra
09.05.09 - 19h30: Feira do Livro de Lisboa (Auditório Central)

13.05.09 - 17h00: Reitoria da Universidade de Brasília
15.05.09 - 17h00: Faculdade de Filosofia/ USC (Santiago)

15.05.09 - 21h30: Museu Nogueira da Silva (Braga)
16.05.09 - 15h00: Centro Cultural do Sobradinho (Brasília)

16.05.09 - 15h30: Biblioteca Municipal de Espinho
16.05.09 - 22h30: Museu do Trabalho (Setúbal)
23.05.09 - 11h00: Fórum “Encontro de Culturas”, ISCTE (Lisboa)
27.05.09 - 18h30: Sociedade de Língua Portuguesa (Lisboa)
30.05.09 - 11h30: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

31.05.09 - 19h00: IV Encontro Alternativas em Sintra
02.06.09 - 19h00: Fundação Torrente Ballester (Santiago, Galiza)
12.06.09 - 17h00: Centro Cultural do Mindelo (Cabo Verde)
12.06.09 - 17h30: União dos Escritores Angolanos (Luanda, Angola)

13.06.09 - 20h30: Auditório da Escola Básica Integrada de Montargil
13.06.09 - 22h30: Intensidez Bibliocafé (Évora)

18.06.09 - 21h00: Biblioteca Municipal de Torres Vedras
03.07.09 - 18h00: Biblioteca Municipal de Faro
03.07.09 - 21h30: Instituto da Juventude (Faro)

04.07.09 - 21h30: Academia Problemática e Obscura (Setúbal)
11.07.09 - 21h00: Feira do Livro de Vila Nova de Cerveira
18.07.09 - 17h00: Biblioteca Manuel Geraldes da Silva (Montijo)


Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Alhos Vedros, Almada, Amadora, Amarante, Aveiro, Barcelos, Batalha, Belo Horizonte, Braga, Bragança, Brasília, Caldas da Rainha, Campinas, Coimbra, Coruche, Ericeira, Espinho, Évora, Faial, Faro, Fortaleza, João Pessoa, Leiria, Lisboa, Luanda, Mem Martins, Mindelo, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque, Odivelas, Olhão, Ovar, Pisa, Porto, Recife, Régua, Rio de Janeiro, Santiago de Compostela, São João d’El Rei, São Paulo, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Torres Novas, Torres Vedras, Viana do Castelo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Real e Vila Viçosa.

Lançamentos já noticiados em:
RTP
Diário de Notícias
Diário Digital
Diário do Minho
Expresso
Jornal de Notícias
Jornal Porto Net
Primeiro de Janeiro
Primeiro de Janeiro
Público
Visão
Voz Portucalense
E em muitas dezenas de blogues...

FAÇA PARTE DESTE PROJECTO. ASSINE A NOVA ÁGUIA: http://www.zefiro.pt/novaaguia.

À venda nas melhores livrarias do país.
E ainda no Brasil: Espaço Cultural É-Realizações, Rua França Pinto, 498 - Vila Mariana - São Paulo.
E ainda na Galiza: Livraria Couceiro, Praza de Cervantes, 6, Santiago de Compostela/ Enrique Dequit, 12, Corunha.
E ainda em Cabo Verde: Livraria Semente (Mindelo).

Sendo este o Blogue da NOVA ÁGUIA e encontrando-se a NOVA ÁGUIA vinculada a três entidades (Associação Marânus/ Teixeira de Pascoes, Associação Agostinho da Silva e MIL: Movimento Internacional Lusófono), neste Blogue poderão participar todas as pessoas que, dessas três entidades, se encontram integradas nos órgãos da NOVA ÁGUIA (ver coluna esquerda). Para isso, têm plena liberdade, podendo ainda os seus textos ser comentados por qualquer pessoa registada neste Blogue. Apenas não admitimos comentários que excedam o limite da civilidade. Quanto aos textos, pedimos apenas que eles não sejam muito longos, ou seja, que não excedam em muito o limite do écran, e que, obviamente, se coadunem com o cariz deste Blogue, enquanto espaço de reflexão sobre as Raízes e os Horizontes, os Fundamentos e os Firmamentos, da Cultura Lusófona, e com a nossa visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo: como se depreende do nosso Manifesto, defendemos um Portugal aberto ao mundo, um Portugal lusofonamente multicolor...

P.S.: Reservamo-nos o direito de uniformizar graficamente os textos publicados, bem como de cortar aqueles que, a nosso ver, careçam de qualidade mínima ou que não se coadunem com o cariz deste Blogue. Quanto às “etiquetas”, solicitamos que, sempre que possível, sejam usadas as já existentes (ver lista de etiquetas na coluna esquerda, após “órgãos da NA e do MIL”, “Noticiáguio” e “Bibliáguio”).

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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Extravagar

António Carlos Carvalho, hoje, sobre José Gil e o seu "Em busca da identidade - o desnorte":

Lendo estas poucas páginas do que poderia ter sido uma conferência ou um texto para ser lido em colóquio, pensei mais uma vez que não creio ser possível reflectir filosoficamente sobre Portugal sem a ajuda da nossa História (do que ela mostra e do que esconde) e sem uma visão interior desse ser espiritual que é a nação. Uma visão que seja realmente *ver* e não apenas *olhar*.

E é de olhares estrangeirados, forasteiros, como o que este livrinho mostra, que eu estou farto, confesso. Sejam eles de influência francesa ou de imitação americana, esses olhares que nos percorrem anedoticamente, cheios realmente de ideias feitas, nunca entendem (como o poderiam fazer se não falam realmente português?) o que Pessoa nos tentou dizer – gritando ao que restava da nossa alma – há 75 anos: Portugal ocultou-se, é ele o verdadeiro Encoberto. Isto que temos hoje é apenas um simulacro, uma casca, uma máscara (uma «persona») de comédia que já nem graça tem. E o povo que por aqui ainda habita, por não ter podido emigrar, alimenta-se apenas de imagens, de fantasmas animados num ecrã.

Link para o texto completo, Aqui

P.S. Continua a faltar, na contemplação portuguesa feita por aqueles que se não contentam com a realidade materializada, o aprofundamento de uma ideia neste texto levissimamente aflorada: "casca". Muitas tradições sapienciais (se me é permitido este singular plural) poderiam aqui depôr...

Se tens inimigos, derrotas-te

Ainda mais deste futuro cinzento?

“Não há dúvida. Perdemos colectivamente o rumo, e não há bússola política, nem gajeiro partidário que nos valha. Indiferentes à lição do passado, que já nenhuma escola ensina, sem ânimo e sem estímulo para sonhar e merecer o futuro, granjeamos passivamente a courela do tempo, até esquecidos de que estamos no presente e somos seus contemporâneos e protagonistas”.

Torga, Miguel, Diário XVI

“Não posso estar em parte alguma. A minha / Pátria é onde não estou [...]"

- Álvaro de Campos, Opiário.

Concordo / Não concordo / Não sei, não respondo... (3)

A alteração dos padrões de comportamento em relação a outras espécies animais é dos factores mais importantes de modernização necessária.
A responsabilização dos seres humanos pelas suas relações com outras espécies animais não pode ser nem antropocêntrica (considerando apenas interesses de forma parcial e especista), nem fetichista pelo sofrimento dos animais (chegando a ignorar a exploração dos próprios humanos).

Na União Europeia, cada cabeça de gado é subsidiada em mais de 2 euros por dia. Este valor excede o rendimento diário de dois terços da população mundial. Nada justifica tal custo: o consumo de carne em Portugal é excessivo, a produção de gado é a principal causa da desertificação e da poluição dos rios e contribui mais para as alterações climáticas que o sector dos transportes. Se a roda dos alimentos aconselha a que 5% das calorias que se ingerem venham da carne, peixe e ovos e se em Portugal a dieta real atinge os 15% nesta categoria, não há razão para atribuir 40% dos subsídios a este sector.

Da parte do governo só existe indiferença pelo tema. Tem protelado a prometida lei de protecção dos animais que puna actos de violência injustificada. A ASAE tem encerrado explorações pecuárias ilegais, mas nunca considerando os modos de tratamento dos animais. De resto tem havido total inoperância e cumplicidade na manutenção das terríveis condições em que animais são usados e abusados todos os dias.

Algumas medidas urgentes:
• Todos os cães e gatos devem receber microchip (apenas é obrigatório em cães que tenham nascido depois de 2008)
• Base de dados única para os dados destes microchips, que permita fácil e rápida consulta e introdução de dados pelos médicos veterinários municipais através da internet. Actualmente existem 3 bases de dados com graves lacunas, o que impede a devolução de um animal perdido ou roubado ou a punição de quem tenha abandonado o seu animal;
• Esterilização de todos os animais adoptados em canis e gatis municipais. Estas esterilizações devem ser feitas no próprio espaço do canil e gatil ou, na ausência de condições apropriadas, em clínicas veterinárias locais através de protocolos;
• Disponibilização da extensão dos protocolos de esterilização a outros animais de companhia;
• Definição legal das regras de tratamento de animais de companhia.
• Fim do uso de animais nos circos, promovendo a qualificação de profissionais do novo circo;
• Apoiar a requalificação de praças de touros fixas com pouca ou nenhuma utilização em espaços culturais;
• Fim de rodeos, de touradas de morte ou à vara.
• Criação de um banco de cérebros em Portugal para promover uma investigação científica séria, eficaz e segura na área das Neurociências (como Alzheimer e Parkinson), acabando com o sacrifício de centenas de animais por ano para efeitos deste estudo;
• Eliminar parte da criação de animais usados no ensino, promovendo protocolos com autarquias, clínicas veterinárias, etc., para uso de cadáveres de animais.
• Fim da produção de ovos por galinhas de bateria (criação intensiva) promovendo a transição para produção de ovos “free-range” (criação extensiva);
• Subsidiar alimentos que promovam a saúde e as necessidades da população portuguesa e não os interesses dos produtores.
• Criação de abrigos preparados para receber animais domésticos e selvagens, de forma a impedir que, por falta de espaços, seja dada a guarda dos animais a quem os maltratou ou negligenciou.
• Incluir as associações de protecção de animais na lei do mecenato, tal como já acontece com organizações de defesa do ambiente e outras.
• Proibição da criação de chinchilas, coelhos, raposas ou martas para pêlo.

Catálogo de Documentários Latino-americanos

Anuncie seu documentário online e grátis

A Televisão América Latina (TAL) acaba de lançar em seu site um Catálogo de Documentários Latino-americanos. Qualquer produtor ou diretor brasileiro (como de qualquer outro país latino-americano) pode postar um anúncio de seu documentário, com indicações de País, Diretor, Produtora, Título e uma Foto.

O catálogo está pensado para ser uma referência online para compradores do mundo todo. O cadastro é simples, rápido e inteiramente gratuito. Você pode cadastrar quantas obras desejar. O caminho é o site da TAL www.tal.tv.
fonte: Ministério da Cultura - Brasil

Na Galiza...

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PGL - À caixa dos correios do Portal Galego da Língua chegou a denúncia de umha mulher que assegura ter sido discriminada em Compostela por razom de língua. Os factos acontecêrom, segundo a sua versom, no sábado dia 11 de Julho.

Esta pessoa explica que apresentou o seu currículo para cobrir umha vaga num conhecido centro comercial compostelano. Segundo explica a mensagem, exprimir-se em galego teria sido o motivo polo qual se lhe rejeitou a solicitude.

Ainda, no correio esta mulher denuncia que o gerente lo local negava a competência desta pessoa em língua castelhana polo simples facto de utilizar galego. «Como veo que no sabes hablar español, no me interesa. Gracias», é a resposta que assegura ter recebido por parte do entrevistador.

Polo seu interesse, reproduzimos parcialmente a mensagem que recebemos:

Atendendo ao anúncio da porta do estabelecimento [...] de Santiago de Compostela: «Se necesita dependienta. Razón aquí», entrei no referido estabelecimento com um currículo e entreguei-o à pessoa ao cargo.

Depois de ler o currículo e perguntar-me sobre a minha experiência laboral prévia, eu respondim em galego. A reacçom desta pessoa foi a seguinte:

«Como veo que no sabes hablar español, no me interesa. Gracias»

Evidentemente eu falo perfeitamente castelhano e galego, assim como algo de inglês, mas ao tentar explicar-lho, este homem nom atendeu a razons e seguiu repetindo:

«Como veo que no sabes hablar español, no me interesa. Gracias».

É isto bilingüismo cordial? Isto é o que pretende Galicia Bilingüe?

P.S.: Esta história acontece em 2009, nom em 1950.

Fonte: http://pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1033%3Agravissimo-novo-caso-de-discriminacom-lingueistica&catid=9%3Acanal-aberto&Itemid=75

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Blogs: terapia da solidão ou distracção da morte precoce?

Rafael Sanzio : São Jorge e o Dragão, 1504-6, óleo s/madeira

Petição que nos chegou...

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Queridos amigos,

Desde março corrente, o outro povo Lusófono da Europa (o Galego) vem sendo acossado pela fúria impositiva do espanhol, levada a cabo pelo actual governo autonómico do PP, no sentido de fazer do português da Galiza uma memória do passado no período de uma legislaturam, e sem
que ninguém proteste. Um conjunto de personalidades galegas decidiu lançar uma petição para a reposição dos direitos dos Lusófonos na Galiza. Esta petição para além de fazer apelo aos galegos faz também apelo à solidariedade Lusófona.

Acredito que este assunto, tal como já tinha acontecido antes com Timor (noutra escala) é da maior importância para a Lusofonia e para Portugal em particular. As instituições comunitárias que JÁ EXISTEM, como por exemplo o Eixo Atlântico vivem e foram criadas na lógica da existência de uma cultura comum entre o Norte de Portugal e a Galiza.
Ao varrer o Galego do mapa linguístico da Galiza a Espanha aproveitará a existência da Euroregião para dar início à castelhanização progressiva do Norte de Portugal. Ajudar a Galiza impõe-se!

Por favor leiam a petição, assinem-na (se concordarem) e divulguem-na.

Miguel Santos


http://www.peticao.com.pt/hegemonia-social-do-galego

Se for preciso, apaga-se o post. Se for preciso, vou-me embora.

Algumas considerações minhas. Um post muito off-topic.

Acabadinha de ler um post no blogue Serpente Emplumada sobre o Nova Águia, cresce-me uma certa indignação. Parece-me que este blogue é um bocado mal visto ou qualquer coisa dentro desse género. A atirar para o exagero. É capaz de ser dor de cotovelo ou então é dor de gesto-manuel-pinho. Não sei e nem quero muito saber, verdadeiramente.
Eu, que não tenho papas na língua nem calos nos dedos, venho escrever para quem quiser ler que não concordo com a expulsão de João de Castro Nunes (não, não o conheço para além disto) e não concordo também que os comentários estejam abertos unica e exclusivamente aos participantes do blogue.
De resto, escolhi participar aqui, porque me identifico com alguns aspectos referidos, porque a lusofonia me interessa, porque achei/acho que este é um projecto interessante.
Não sei para quê tanto alarido, por causa de um blogue, por causa, quem sabe também, de uma revista.

Peço desculpa pelo post, mas há coisas que precisam de ser ditas. E eu gosto de dizer tudo às claras. De resto, é ler o título e reter que não gosto muito de circuitos fechados e que me agrada a democracia.

Concordo / Não concordo / Não sei, não respondo (2)

A crise de representação, cujos sintomas mais evidentes são o alheamento e a indiferença das opiniões públicas perante o fenómeno democrático, a contestação aberta das organizações partidárias vigentes e o crescimento preocupante das forças extremistas que reúnem votos de simples protesto, só pode ser ultrapassada pela reafirmação da regra de ouro da democracia: A soberania reside no povo.

Esta regra é substantiva e não formal. A crise de várias democracias europeias, em nosso entender, tem muito a ver com uma confidencialização do processo político, com o esgotamento da democracia no mandato parlamentar, com o absolutismo dos critérios partidários no acesso à vida política e ao controlo das decisões e também, porque não dizê-lo, com a plastificação da mensagem política, onde faz cada vez mais falta o sentido dos valores e a confissão da verdade.

Afirmamos que não há questões nacionais que o povo não deva conhecer. Daí tiramos a lição de que os sistemas democráticos e as respectivas classes dirigentes não podem arrogar-se um poder de conhecimento e decisão que exceda ou ignore a sua legitimidade original. De igual forma, se entendemos que a base da democracia são os partidos políticos e o centro da vida democrática está nos Parlamentos, não admitimos que os partidos fechem a circulação de elites políticas nem aceitamos que Parlamentos totalizem as formas de expressão da soberania popular. Conscientes de que a regra de maioria é o modo democrático de organizar a expressão de vontade, não cometemos o erro, tão frequente nos nossos dias, de identificar permanentemente a maioria com idoneidade ou legalidade. É por isso que defendemos o reforço dos corpos independentes do Estado no controlo da decisão pública.

Concordo / Não concordo / Não sei, não respondo...

Haverá hoje cerca de 100 mil imigrantes a trabalhar clandestinamente em Portugal, alguns deles descontando para a segurança social e todos submetidos a um regime de salários baixos, de medo e de excepção. Os que possuem autorização de permanência não a conseguem renovar e muitos são assim expulsos para a ilegalidade por força da lei. Muitos têm trabalho – uns com contrato, outros sem qualquer vínculo laboral –, muitos outros estão impossibilitados de procurar trabalho pela sua situação irregular ou são despedidos para serem substituídos por outros que têm garantia de regularização. A grande maioria é explorada por estar desprotegida do ponto vista legal. As mulheres imigrantes, em particular, vivem situações de grande discriminação. A ausência de documentos coloca-as numa posição de completa subalternidade e dependência. Muitas mulheres imigrantes vivem situações de violência doméstica e não têm meios para sair dessa situação. Ora, todas as mulheres devem ser protegidas quando atacadas nos seus direitos humanos. Portugal deve também acolher as mulheres que são vítimas de casamentos forçados e que fogem a situações de violência nos seus países de origem.

Defender que a resposta é afastar o Mundo das nossas fronteiras ou colonizar a cabeça do outro é uma capitulação da razão e da humanidade. Pelo contrário, é pela mestiçagem e pela aproximação que se pode criar uma Europa aberta.

Nesse sentido, poderíamos pensar nas seguintes medidas:
• Regularização dos clandestinos e legalização dos imigrantes, com todos os direitos e deveres;
• Direito de voto de todos os imigrantes que estejam em Portugal há mais de três anos;
• Concessão de autorização de residência aos actuais portadores de autorização de permanência, extinguindo esta categoria;
• Defesa do direito do solo como fundador da lei da nacionalidade;
• Recusa da “Directiva do Retorno” da União Europeia, ou de políticas de criminalização da imigração como a proposta por Berlusconi. Assim, atribuir autorização de residência:
- a todos os portadores de autorização de permanência,
- a todos os portadores de visto de trabalho concedido em instalações consulares portuguesas, logo que ocorra a sua primeira renovação anual;
- a todos os beneficiários de um processo de reagrupamento ou reunião familiar (o Decreto regulamentar n.º 6/2004 confere direito de reagrupamento familiar aos portadores de autorização de residência e apenas de reunião familiar aos portadores de autorização de permanência, que assim ficam num estatuto de precariedade e dependência da renovação do familiar que os chamou);
- a todos os cidadãos estrangeiros que comprovem ter entrado em território nacional em data anterior à do encerramento do último processo de legalização (Março de 2003);
- a todos os cidadãos estrangeiros entrados em Portugal depois desta data e que sejam titulares de um contrato de trabalho, um ano após a sua celebração.

Não é de bom tom falar de…

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Ainda no Público de hoje, vem um curioso dossier sobre a entrada da extrema-direita no Parlamento Europeu. Curioso por causa do tom. Como se ainda ninguém tivesse percebido que, pelo menos em Portugal, a dita “extrema-direita” está completamente alinhada com a esquerda e a direita oficiais. Todos defendem um Portugal sobretudo ou exclusivamente europeu (leia-se: “branco”), de costas voltadas e de portas fechadas para os africanos, brasileiros, etc. Obviamente, também aí a diferença está no tom. Não é de bom tom falar de…

Inscrições abertas até 28 de Agosto. Informações: 217920000

Da Vergonha ao Orgulho no espaço de uma semana...

Ainda sobre António Quadros*

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(...)
Nessa medida, defendemos pois aqui a relativa verdade de todas as filosofias. E isto sem defendermos, propriamente, a relativização da Verdade. A este respeito, fazemos questão de transcrever as seguintes palavras de António Quadros, que subscrevemos na íntegra: “A verdade é só uma? Talvez. Mas cada homem – e mais largamente cada país, está colocado em situação diferente em relação à verdade, relação da parte para o todo, entenda-se. A verdade é só uma, mas desabrocha em infinita variedade e plasticidade. Reduzir todos os planos da paisagem a uma só, ontem o plano de Florença ou Roma, hoje o plano de Paris, amanhã o plano de qualquer outra cultura igualmente totalitária e exigente, é empobrecer as possibilidades de alargamento de compreensão universal. Pelo contrário, possibilitar o desenvolvimento de tantas estéticas quantos os países, de tantos prismas de observação e de conhecimento quantas as resultantes de um determinado circunstancialismo geográfico, étnico, psicológico, político, social e filosófico, é aumentar em número proporcional as ‘tomadas de contacto’ com a verdade.”[2].

E por isso acompanhamos ainda António Quadros quando este defende que “ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes”. Se o não fossem, como nos diz ainda, “teríamos todos um único horizonte, um único modo de ver e de contemplar – marcharíamos todos como carneiros, quem sabe se para o abismo?”. Eis porque, com efeito, ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes, eis porque, efectivamente, ainda bem que múltiplas e diferentes são as culturas e as filosofias – ainda nas palavras de António Quadros: “A multiplicação das culturas, a heterogeneidade dos pensadores, pelo contrário, aumenta proporcionalmente as tomadas de contacto com o Ser. A existência das filosofias nacionais garante o enriquecimento e a vivacidade das possibilidades de conhecimento dos humanos.”[3]. Isto, como é óbvio, na premissa de que cada “filosofia nacional”, de que cada “filosofia situada”, traz, efectivamente, algo de novo, de único, isto, como é óbvio, na premissa de que cada cultura, de que cada comunidade, de que cada homem, traz, de facto, algo de singular. Mas essa é, explicitamente, a premissa de que parte António Quadros – daí ainda, a título de exemplo, estas suas palavras: “Pede-se à criatura – humana ou artística – que não se restrinja a repetir, que não aliene a sua singularidade e, mais do que isso, que acrescente à ordem de que herdou a vida: que traga mais verdade, mais justiça, mais beleza – que invente, numa palavra.”[4]. É, aliás, por isso, precisamente, que, para este pensador, a própria “identidade portuguesa” está, ainda e sempre, em aberto – à espera que cada um de nós contribua para o seu “acabamento”[5].

[2] Introdução a uma estética existencial, ed. cit., p. 13. Ao invés, “a posse total e absoluta da verdade suporia uma só língua” [cf. “Da Língua Portuguesa à Filosofia Portuguesa”, in AA.VV., Seminário de Literatura e Filosofia Portuguesas (actas), ed. cit., p. 89].
[3] A Angústia do nosso tempo e a Crise da Universidade, ed. cit., p. 35.
[4] Crítica e Verdade: introdução à actual literatura portuguesa, ed. cit., p. 269.
[5] Como ele próprio o afirmou, supomos que na sua última entrevista, publicada no Diário de Notícias de 11 de Março de 1993, “a identidade portuguesa não é, quanto a mim, qualquer coisa de estático, mas qualquer coisa a construir”.

* In Fundamentos e Firmamentos do pensamento português contemporâneo (no prelo)

Para o António Quadros, no dia em que faria 86 anos...

De novo, precisamos
De um quadrado
De uma identidade

Como tu subtilmente dizias
De uma “identidade em aberto”
Para nos abrirmos a nós mesmos

Como um quadro em branco
Como uma quadra sem rima
Para, de novo, um rumo termos

novo acordo ortográfico: últimas notícias e comentários...

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1. Notícias
a) A Academia das Ciências de Lisboa (ACL) acaba de enviar para a imprensa um comunicado no qual anuncia uma nova edição do Vocabulário da Língua Portuguesa, com os neologismos de uso corrente generalizado, incorporados no léxico comum ao longo dos últimos quarenta anos.
Sublinha que este vocabulário será realizado nos termos do Acordo Ortográfico (1990). A publicação será feita pela Imprensa Nacional.
Fala num futuro Vocabulário Comum da lusofonia, com a contribuição de todos os países signatários e da Galiza.
No programa Páginas de Português realizado pela Ciberdúvidas na Antena 2, em 5 do corrente, o Professor Artur Anselmo esclareceu que será um Vocabulário resumido, com cerca de 60 000 a 70 000 entradas, com base no Vocabulário de Rebelo Gonçalves, completando e actualizando a obra da ACL de 1970.
Não será, portanto, exaustivo como o VOLP brasileiro, considerando que este contém muitos lexemas regionais não usados em Portugal. Terá duplas grafias (falou em triplas e em quádruplas…, o que me pareceu excessivo, pois estas serão já muito raras).
O financiamento virá das vendas da editora. O texto será entregue para impressão em princípio de Outubro, e a publicação estará nas bancas no fim do ano corrente.
Quanto ao Vocabulário Comum, disse, como era de esperar, que os diversos países signatários terão depois de se entender.
Concluiu, sensatamente, que é preferível os assuntos serem estudados com profundidade a serem-no com precipitação.
b) Na mesma emissão, o Professor Malaca Casteleiro informou que tem em estudo um Dicionário Ortográfico e de Pronúncia do Português Europeu, com muito mais de 100 000 entradas. Esta obra inclui morfologia, flexões (também verbais) e, além da ortografia, também a fonética, com base no Dicionário da ACL 2001, no Grande Dicionário da Porto Editora e noutros trabalhos. Depreende-se que não é propriamente um dicionário, com acepções.
As bases de estudo serão: o Vocabulário de Rebelo Gonçalves e o de Pedro Machado. O projecto foi iniciado em Novembro de 2008 e estará concluído em Outubro de 2010. Foi financiado com 70 000 euros de dinheiros públicos, instalações e logística. O projecto terá de encontrar ainda uma editora interessada na publicação.

2. Comentários
2.1 ACL
a) O Vocabulário da ACL tem a vantagem de permitir rapidamente pôr o novo AO em vigor, dado que uniformiza as variantes do português europeu no novo AO. Sem esta uniformização legal (ainda não foi retirada à ACL o direito de fazer lei na língua) continua a não ser aceitável que o novo AO entre em vigor. As publicações comerciais já existentes apresentam soluções algumas vezes díspares e o VOLP brasileiro não contempla muitas das nossas variantes (referências várias foram feitas em Ciberdúvidas ). Há pressa em ter um Vocabulário para o novo AO em vigor, para haver acompanhamento nosso no esforço que o Brasil está já a fazer na lusofonia com o seu VOLP, publicado no início deste ano.
Este vocabulário resumido da ACL tem o inconveniente de ser uma solução minimalista em relação ao VOLP brasileiro, de 350 000 entradas. Não ficamos muito prestigiados na lusofonia. Espera-se que possa haver, depois, um VOLP do português europeu mais completo. Fica a dúvida sobre como será a sigla deste vocabulário resumido da ACL. Lembra-se que o Brasil foi buscar a sua sigla ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da ACL de 1940, que aliás constituiu a base para o vocabulário brasileiro nessa altura (bons tempos estes da ACL…). O Vocabulário agora em estudo da ACL, na comunicação à imprensa intitulado Vocabulário da Língua Portuguesa, será só VLP? Enquanto não houver sigla oficial designarei o brasileiro por VOLP PB e o da ACL resumido por VOLP PER.
b) O facto de a ACL falar num Vocabulário Comum, com a contribuição de todos os países signatário e da Galiza, significa que a ACL interpretou bem o espírito do Acordo de 1990. Esta reforma ortográfica planetária da língua portuguesa só se concretizará quando houver um Dicionário Comum para toda a lusofonia, no qual se poderão encontrar as diversas variantes legais no universo da língua. Isto implica a necessidade prévia de haver um acordo quanto a um Vocabulário Comum.
c) Independentemente dos encargos com a publicação, há encargos com o estudo. Parte-se do princípio de que a ACL dispõe já de verbas para esse fim, pois que ainda há pouco tempo afirmava que não tinha disponibilidades para elaborar um VOLP PE.
d) Enquanto a ACL continuar a ter sérias responsabilidades oficiais na língua, não pode de novo sujeitar-se a críticas como aquelas que lhe foram feitas no Dicionário 2001, que apadrinhou. Esse dicionário apresentava muitas virtualidades, nomeadamente ser de facto contemporâneo e não uma cópia de outros, trazer a novidade da pronúncia e muitas abonações; mas enfermava de um excesso de abertura a barbarismos, que escandalizou as pessoas extremosas na língua.
Supõe-se que para este projecto a ACL terá reunido uma equipa competente alargada e multidisciplinar. Não basta o apoio dos dois mencionados Professores Maria Helena da Rocha Pereira e Aníbal Pinto de Castro. Já será de louvar se estes catedráticos conseguirem fazer um trabalho completo de coordenação e uniformização científica.
Sublinha-se que a cópia simples do VOLP PB é inaceitável, pois algumas das nossas variantes costumam ter preocupações etimológicas mais exigentes (ex.: húmido e não a única entrada úmido do VOLP PB). Por outro lado, espera-se que algumas soluções brasileiras aceitáveis sejam ponderadas, como, por exemplo, as brasileiras escâner, estresse, toalete, preferíveis a algumas que têm sido publicadas ultimamente em Portugal: a criticável *scaner (sc inicial está abolido da língua desde o princípio do século passado); a inaceitável *stresse (st inicial sempre se converteu do latim em es); a incompreensível *toilete pronunciada tuà (o encontro vocálico oi, nunca foi entre nós o ditongo uà).
Certamente que para a execução pormenorizada e laboriosa dos verbetes (pesquisa, recolha, tratamento informático) terão sido incumbidos colaboradores mais jovens, dada a idade provecta em média dos académicos da ACL. Isto porque, partindo do princípio de que o trabalho não terá começado há muito tempo, digamos um mês, temos cerca de 16 semanas a 5 dias, até Outubro (com Agosto de permeio…), o que dá a necessidade de análise de quase 1000 verbetes por dia, atendendo ao tempo depois disponível para a organização e revisões finais. Esperemos que a data prometida pelo Professor Artur Anselmo se realize. Portugal está cansado de promessas que acabam por não se cumprir ou por serem depois realizadas “em cima do joelho” como diz o povo. Não era nada gratificante para Portugal que a ACL se sujeitasse agora a críticas no seu Vocabulário.
2.2 Obra do Professor Malaca Casteleiro
A língua muito deve ao Professor Malaca Casteleiro, pelo seu espírito de inovação e pelo esforço que tem feito na elaboração dos projectos e acordos ortográficos, em colaboração com os também reputados cientistas do Brasil. O trabalho que agora tem em projecto parece ser muito útil e, pelo menos, é mais ambicioso do que o da ACL. Faz-se votos para que não insista nos termos que escandalizaram a comunidade linguística no seu dicionário da Academia 2001.
Este Vocabulário não resolve o problema da urgência em termos um VOLP do português europeu, nem há a certeza de que tal trabalho faça lei na língua.

3 A dispersão de esforços
Lembra-se, muito vivamente, de que devem ter também uma palavra a dizer no VOLP PE oficial outras entidades muito competentes na língua, como o ILTEC, e que há uma acervo linguístico considerável no Centro de Linguística da Universidade de Lisboa.
No país, parece que os sucessivos poderes fazem gala em voltar tudo à estaca zero, perdendo-se tempo e meios, só para politicamente não aceitarem o que de positivo outros fizeram; …e essa “falta de unidade” trava a comunhão de esforços, que é multiplicativa. Na língua, a “falta de unidade” é também gritante. Temos o Instituto Camões dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros; temos o empenho na língua do Ministério da Cultura; não deixa de ser fundamental na língua o Ministério da Educação; e, finalmente, temos, arvorando-se de autoridade na língua, a ACL, dependente do Ministério da Ciência e Tecnologia… Cada um com a sua capelinha.
Assim, o que legitimamente os portugueses perguntam é para quando Portugal terá uma Academia Portuguesa de Letras, como têm os países que respeitam a sua língua, nomeadamente a Espanha, com a prestigiada Real Academia da Língua Espanhola, ou o Brasil, com a sua ilustre Academia Brasileira de Letras. Uma Academia Portuguesa com um escol de linguistas e escritores respeitados, que verdadeiramente superintendesse na língua, não só por princípio hierárquico estabelecido, mas onde estivesse representada a superior competência linguística ou artística nas letras, do país.
Este desprezo pela importância fundamental do património linguístico é bem uma responsabilidade de todos os governos, que frequentemente parece estarem mais preocupados com os problemas corporativos dos partidos do que com os valores nacionais.
(...)

D’ Silvas Filho

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

APARIÇÃO


O cavalo tinha eloquência,

a besta de porre relinchava,

toalhas o cavalo comia,

no altar quando escouceava

moral, gripe e demência,

a galope e a trote, e tossia

pela manhã, quando pensava

que era galo. Surgiu a besta

à virgem, a virgem surgiu

sem manto, e tinha a besta

esquizofrenia e cobriu.



Para a Maria João Pires...



Cada vez mais acho que há, grosso modo, duas espécies de portugueses: os que gostam de ser portugueses e os que gostariam de não ser portugueses…

Os primeiros não trocariam essa condição por nada. Os segundos, por quase tudo: porque, na sua perspectiva, quase tudo é preferível a ser português. Não haveria um passado “negro” para carregar sobre os ombros, nem um presente sombrio, nem um futuro nebuloso, nem, nem…

Há, porém, quem, tendo podido não ser português, tenha escolhido sê-lo: caso do Fernando Pessoa, como salientou Agostinho da Silva. E há depois pessoas que, sendo portuguesas, pretendem renegar a nacionalidade. Ou que, pelo menos, equacionam essa hipótese…

Não sei se alguma vez te perdoarei por isso! Vale-te o Schubert…

PROGRAMA DE AUTOCONHECIMENTO

OBJETIVO:

Conhecer a si mesmo.
Exercitar a compreensão.
Ver a vida com outros olhos....

Este programa foi baseado no CRC - Caminho de Renovação Continua, idealizado por voluntarios do CVV - Centro de Valorização a Vida. Que tem como objetivo principal de realizar um encontro consigo mesmo, baseado na troca de experiência.O programa é composto por quatro módulos, os participantes se integram a qualquer momento. Colocando suas experiências, opiniões e ideias a respeito do tema proposto.

Participem:
http://desenvolvimentodoser.blogspot.com/

Diário da NOVA ÁGUIA: 13 de Julho...


Anteontem, Vila Nova de Cerveira juntou-se ao Mapiáguio. Já lá havíamos estado em 2006, nas comemorações do centenário de Agostinho da Silva, e em 2007, nas comemorações do centenário de Delfim Santos. Agora foi a vez do terceiro número da Nova Águia. E, daqui a uns meses, do quarto, por convite da Câmara Municipal…

Desta viagem trouxemos, de resto, alguns “tesouros” para esse quarto número, que já bem recheado está…

A Colecção Nova Águia tem já igualmente mais uns títulos na calha. Em breve haverá novidades…

Números para reflectir


Segundo um Relatório do Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (PNUD):

As 3 pessoas mais ricas do mundo são tão ricas como os 48 países mais pobres.

A riqueza das 84 pessoas mais ricas do mundo supera o produto interno bruto da China com os seus 1,2 Mil Milhões de habitantes.

As 225 pessoas mais ricas dispõem de uma fortuna equivalente ao rendimento anual acumulado de 47% do total dos indivíduos mais pobres do planeta, isto é, mais de 3 Mil Milhões de pessoas.

Segundo o mesmo organismo das Nações Unidas, seria suficiente menos de 4% da riqueza acumulada destas 225 maiores fortunas mundiais (avaliadas em mais de 1.000 Biliões de dólares) para dar a toda a população do planeta acesso às necessidades básicas e aos serviços elementares: saúde, educação, alimentação.

Informe ONU - PNUD 1998 - disponível em Economica, 49, rue Héricart, 75015 Paris

Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)

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SÓCRATES — Um povo estragado por uma liberdade excessiva é o mais insuportável de todos os tiranos; é por isso que a anarquia não é o cúmulo dos males senão porque é o mais extremo despotismo: a populaça sublevada contra as leis é o mais insolente de todos os senhores. Mas é preciso um caminho mediano e este caminho mediano consiste em ter um povo leis escri­tas, sempre constantes e consagradas por toda a nação, que estejam acima de tudo, que sejam a única origem da autoridade para os que governam, de modo que tudo possam para o bem, segundo as leis, que nada possam contra elas para permitir o mal. Era isto o que os homens, se não fossem cegos e inimigos de si pró­prios, estabeleceriam unanimemente para sua felicidade. Mas uns, como os atenienses, derrubam as leis, para que os magistrados não tenham autoridade excessiva, visto que por intermédio deles reinariam as leis; outros, como os persas, por um respeito supersticioso das leis, põem-se em tal escravatura perante os que as deviam fazer reinar, que são estes mesmos quem domina, sem que haja outra lei real além da sua vontade absoluta. Todos se afastam do objectivo, que é uma liberdade moderada só pela autoridade das leis de que os diri­gentes deviam ser simples defensores (...).

In Diálogos dos Mortos (Fénelon), Lisboa, Edição do Autor, 1942, pp. 17-18.

Em Setembro...

Uma foto de Pascoaes...

O risco de tudo o que é muito antigo ou muito novo... Seduz com a aparência de não pertencer ao tempo, deslumbra com o brilho da falsa eternidade.

A REALIDADE É A MAIOR FICÇÃO...

PRÓXIMO SÁBADO, 123º LANÇAMENTO DA NOVA ÁGUIA...

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18.07.09 - 17h00: Biblioteca Manuel Geraldes da Silva (Montijo)

Domingo, 12 de Julho de 2009

Outro texto que nos chegou...

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Um Camões amargurado...

Em vales penados pelo sofrimento, aqui estou eu, apagado por um calor derrotado, onde a chama acesa, reivindica uma centelha, o reencontro até sem palavras, para que a imagem viva se não desvaneça, cruelmente, no mundo das memórias desencontradas. Dou por mim a segurá-la, como se da minha própria vida se tratasse, consciente que o sonho me preenche e que o voo para a transcendência deste Universo figurado, pode radicalizar o fim de uma guerra, onde a única batalha ganha é a do sentimento mútuo e a entrega do coração ao seu desejo. Afastados por quem, ilegitimamente, atribuiu força ao grande poder mundano, para destroçar a emoção e a felicidade de quem protegia, continuo a seguir o caminho, cujo passo para o abismo, será o culminar do meu comportamento, nobre é certo, mas que preferia ter renunciado a essa fidalguia, não agora, mas logo que nasci, pois permitir-me-ia nunca ter sonhado e sobretudo, renunciado à Ilusão de transformar a pequena perdiz que sou, num perdigão por todas as cortes aclamado.

José Carlos Pereira Mendes

ENCONTRARTE PROMOVE-SE NA GALIZA


No Sábado, dia 11 de Julho, uma representação do EncontrarteEncontro de Artes Plásticas e Cinema de Animação, deslocou-se à Galiza, com o objectivo de dar a conhecer aos públicos o evento que se realizará de 23 a 26 de Julho, em Amares.
O Encontrarte surgiu da vontade de um grupo de pessoas voluntariosas em mostrar vários géneros de expressão artística fora dos centros habituais de mostras de arte em Portugal.

O evento tem dois grandes objectivos definidos, o concurso e a mostra de convidados nas duas áreas: artes plásticas e cinema de animação. Mas não ficará por aqui, pois apresentará actividades complementares que são transversais às actividades principais, que vão desde os diversos workshops às conversas, passando pelas artes cénicas, música e poesia.
Esta acção de promoção junto dos públicos da Galiza pretende dar a conhecer os pormenores deste evento invulgar, atraindo-os para momentos de pura fruição artística.

Esta comitiva portuguesa, onde também se integram a porta-voz Cândida Ramoa mais Lázaro Silva, Francisco Santos e Carla Pinto (programadores) chegou a Vigo às 17h00 espanholas, mais tarde a Santiago de Compostela, por volta das 19h30, com regresso marcado para as 22h00.
Nesta visita, o grupo aproximou-se dos públicos locais, aproveitando ainda o momento para um contacto com os órgãos de comunicação social da Galiza
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Semanas decisivas para o Encontrarte
É já nos próximos 23, 24, 25 e 26 de Julho, que se realiza em Amares o Encontrarte – Encontro de Artes Plásticas e Cinema de Animação.

Este evento surgiu da vontade de um pequeno grupo de pessoas, que se propõe mostrar durante quatro dias, de uma forma menos convencional e fora dos habituais centros de mostras de arte em Portugal, vários géneros de expressão artística.
Tendo dois grandes objectivos definidos, o concurso e a mostra de convidados nas duas áreas - artes plásticas e cinema de animação - o Encontrarte apresentará um interessante leque de actividades complementares que serão transversais às actividades principais. Nestas iniciativas, onde há uma importante rede de colaborações e parcerias, destacam-se workshops, tertúlias e conversas, artes cénicas, música, representação e poesia.

Estando o evento já a viver uma fase decisiva em termos de produção, destaca-se a preparação dos espaços que vão acolher momentos artísticos e exposições. Neste âmbito, aposta-se em particular na recuperação dos níveis de segurança do edifício dos antigos Paços do Concelho, onde os compartimentos dos serviços públicos, como a Câmara, as Finanças, o Tribunal e as respectivas celas da cadeia, serão palco e cenário para a fruição de algumas obras.
O Encontrarte parte, também nesta fase, para as operações de promoção do evento junto dos seus públicos.
Nesse sentido, estão programadas, para as próximas semanas, acções de divulgação nas principais cidades do Baixo-Minho, no Grande Porto e na Galiza, locais de onde se esperam visitantes para a primeira edição do evento.

--- engenharia humana...

As idéias eugenistas fizeram sucesso entre as elites intelectuais de boa parte do Ocidente, inclusive as brasileiras. Mas houve um país em que elas se desenvolveram primeiro, e não foi a Alemanha: foram os EUA. Não tardou até que os eugenistas de lá começassem a querer transformar suas teorias em políticas públicas. "Em suas mentes, as futuras gerações dos geneticamente incapazes deveriam ser eliminadas", diz o jornalista americano Edwin Black, autor de A Guerra contra os Fracos. A miscigenação deveria ser proibida.

Programas de engenharia humana começaram a surgir, inspirados por técnicas advindas de estábulos e galinheiros. O zoólogo Charles Davenport, líder do movimento nos EUA, acreditava que os humanos poderiam ser criados e castrados como trutas e cavalos. Instituições de prestígio, como a Fundação Rockefeller e o Instituto Carnegie, doaram fundos para as pesquisas, universidades de primeira linha, como Stanford, ministraram cursos. Os eugenistas americanos ergueram escritórios de registros de "incapazes", criaram testes de QI para justificar seu encarceramento e conseguiram que 29 estados fizessem leis para esterilizá-los.

As primeiras vítimas foram pobres da Virgínia, e depois negros, judeus, mexicanos, europeus do sul, epilépticos e alcoólatras. Segundo Black, 60 mil pessoas foram esterilizadas à força nos EUA. Em seguida, países como a Suécia e a Finlândia começaram programas parecidos.

Portanto, quando a Alemanha de Hitler começou a esterilizar deficientes físicos e mentais, em 1934, não estava inventando nada. Só que eles foram mais longe.



http://super.abril.com.br/superarquivo/2005/conteudo_391737.shtml

José Vilhena


(1-10-1974, in Gaiola Aberta, n. 8, p. centrais)


Da Saudade e da "Índia de miragem"

“Saudade… […] movimento pendular do coração lusíada entre a pátria e todas as Índias que se atingem e aquela Índia de miragem, que não é nenhuma destas e sempre se procura e deseja, quando estas se nos deparam; incessante movimento do coração do homem entre as terras e os céus visíveis e um Céu e uma Terra que apenas se pressentem na misteriosa polarização de toda a nossa alma”

– Leonardo Coimbra, “Sobre a Saudade”, in Dispersos. III - Filosofia e Metafísica, compilação, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel, nota preliminar de Francisco da Gama Caeiro, Lisboa, Editorial Verbo, 1988, pp.137-138.

Pascoaes e Hölderlin

Poetas da profecia e da divina loucura
à procura da índia ainda distante
encontram se numa infinita despedida
na ponte do tolo de Amarante

e lembram as ruínas do continente
célticas e gregas pedras no sol-pôr
e falam das hecatombes e da dor
da ignorância do dia impertinente

que alvoreceu na Europa desencantada
onde os gritos do mercado derrubam o mito
que era tudo mesmo e que é não mais nada

do que uma velha e gorda vaca bem acabada
na lembrança, remota, do rito
com o touro divino numa praia dourada.

Originalidade...



Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

|José Carlos Ary dos Santos

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A originalidade…


A proximidade à Origem é o mais difícil, hoje, no agora desta época na qual nos vemos como contemporâneos, mas num agora distante do Instante que não dista, nem espaço nem tempo, em relação ao que não tem uma abertura outra (época deriva de epochê) que não o ser de tudo – essa suspensão do absoluto que jorra ênfases do nada…


E no entanto, este nosso momento epocal é marcado por uma superabundância discursiva sem precedentes. E estamos longe de podermos compreender os efeitos desta dilatação do dizer na Língua e nos territórios por ela mapeados. Mas mesmo aqui, na era dos GPSs, caímos na tentação da desvirtuação (desvirtualização) dos mapas – hoje, com um clique, os mapas convertem-se em representações minuciosas dos locais (Jean Baudrillard, por exemplo, tem uma fecunda reflexão em relação a este tema), sem espaço para a desorientação e a exuberância dos rumos.


Houve, portanto, uma regressão em relação aos mapas medievais que fundiam numa mesma representação, assumidamente dilatória, dos diversos territórios abertos à exploração humana, porque o ser humano, para se assumir em verdade, é um ser de pluriverso, de real e de imaginário, de sagrado e de profano, de profundo e de superficial. E aí os mapas estavam abertos à percuciência dos olhares: cada homem, cada leitor, cada buscador, procura apenas aquilo de que precisa, aquilo em que acredita, aquilo que pode ver ou o que pode viver, e só isso, e apenas isso, encontra.


Neste sentido, a abolição do mapa, através da aplicação da mais recente tecnologia na orientação dos que querem ir dum local a outro, corresponde à tentativa de impossibilitar a Perdição. E sem a possibilidade de nos vermos perdidos no mundo falhamos a oportunidade do mais decisivo encontro: a diacosmese (Eudoro de Souza) do Amor na Soltura.


Já sem um aqui e um agora que limitem a obscuridade para lá da luz que dá a ver o concreto e o consistente com as nossas crenças amestradas.


A esta luz a poesia adentra-se no labirinto do Íntimo, recusando a fascinação do dito: a poesia é uma apropriação na carne do inapropriável do mundo: a patência, em viva expectação, da dor do mundo, a dor de haver mundo, a dor-alegria, a dor-prazer, a dor-sofrimento, o ardor, a ardência dos infernos que nos dão chão. Caminhar como poeta sobre a terra, sob o influxo astral do Impossível, é caminhar sobre um braseiro. É viver a utopia de não ter um lugar de chegada, um burgo que albergue um lar, um espaço que dê guarida ao fogo da continuação, o fogo que passa de pais para filhos e que, uma vez aceso, convoca os vivos e os mortos para a comunhão e a confecção do quotidiano familiar. O poeta vive a ruptura da filiação, consuma o fim do mundo tal como o conhecemos quando o olhamos a partir do sossego dum aqui e dum agora com margens fixadas por crenças inamovíveis.


O Poeta recusa-se a ser herdeiro, à casa do Pai traz sempre, ou a preocupação da fuga, ou a alegria do regresso do filho pródigo, a alegria que acende a inveja dos irmãos incapazes de partir, aqueles para quem toda a partida é uma fuga. É ao que vive como poeta que se dirige a bela morena do Cântico dos Cânticos, ela própria apropriada pela Poesia:


“Não repareis na minha tez morena, pois fui queimada pelo sol. Os filhos de minha mãe irritaram-se contra mim; puseram-me a guardar as vinhas, mas não guardei a minha própria vinha.”(I,6).


A vinha, a Perdição dionisíaca no Feminino exalado a partir do interior da Terra, do coração da Noite imperscrutável. A simplicidade da entrega, a impossibilidade da remissão. Com todos os laços cortados com o mundo, com as veias da alma em flor, sangue de dentro-sangue-do-mundo, o sacrifício da mesmidade no mergulho na imensidade dos que se libertam das convenções e das contristuras de ter que ter autorização para ser isto ou aquilo. É esta libertação que permite o autêntico encontro:


“És toda bela, ó minha amiga, e não há mancha em ti.”(4,7).


É esta suspensão na beleza, esta (co-)presença na absolução do sem-termo, que dá à Palavra, na Poesia, a sacralidade do não-dito, a majestade do interdito ao dizer enfermiço dos homens sob a égide do ego, os que se querem senhores de si no confronto com os outros servos da neurose egótica, fantasmas errantes, incapazes de Errância e Perdição. Porque:


“O amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o cheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina.”(8,6).


O “Fogo que arde sem se ver” a altitude a que se elevam os que tudo perdem, perdendo-se de tudo.

TEXTO DE ADRIANO MOREIRA PARA A NA 4...

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EUROPA, A MATRIZ DO OCIDENTE (III)

Admitir como inevitável a criação de um pilar autónomo de segurança e defesa da Europa nesta data, aconselha a ponderar que a Europa é uma região debilitada porque não tem matérias-primas que tinha procurado dominar pela imposição de um regime colonial; porque é dependente de energias não renováveis; porque não tem reservas estratégicas alimentares; porque não conseguiu responder à antiga proposta de uma repartição de encargos na NATO, e agora é objecto dos severos efeitos colaterais da crise do sistema financeiro mundial, com consequências graves na economia real.

Nesta circunstância, proceder ao alargamento sem haver, conhecido, qualquer estudo sobre as fronteiras amigas, questão que inclui a Rússia em busca de recuperação do estatuto internacional, e a difícil decisão sobre a Turquia, não corresponde ao conceito de prudência governativa. O esforço de participação nas missões internacionais, tem de ser reavaliado perante esta debilitação.

Acresce que a diferenciação entre segurança externa e interna é praticamente inexistente, e que a utilização do conceito de cosmopolitismo, que enriqueceu a Europa, para cobrir o multiculturalismo com que a teologia de mercado do neoconservadorismo americano animou as migrações da geografia da fome para o continente europeu, sem políticas de acolhimento, de integração, e de assimilação, que em vez de organizar uma sociedade civil confiante deixou emergir a multidão injustiçada, soma-se ao desastre financeiro e económico, ao terrorismo global, ao desemprego, à evolução dos mitos raciais para mitos culturais, no sentido de desenvolver resistências ao processo europeu, quebra de confiança interna nas instituições, distanciamento popular dos poderes europeus, estes ao mesmo tempo distantes geograficamente e do conhecimento suficiente dos cidadãos.

A quebra de confiança nas instituições europeias e nacionais, igual quebra da relação de confiança das sociedades civis cuja vida habitual pede observância dos modelos de comportamento, a renúncia ao exercício da pietas de que se alimenta o civismo e a responsabilidade do voto, são por seu lado sinais da urgência de repensar a reconstrução da governança destruída do globalismo, de repensar a função da Europa nessa reconstrução.

Repor a confiança, mal servida por lideranças sem carisma, é seguramente a primeira das exigências, abundando as dependências gerais europeias, as actuais carências, os sinais de algum recuo na adesão convicta ao projecto da unidade.

Assumir que, no conjunto das virtudes e dos defeitos das virtudes, o direito internacional, os direitos humanos, a teoria do Estado de direito, a democracia, a adesão à sociedade da informação e do saber, são contribuições europeias para o património como da humanidade, e por isso também a tese da igual dignidade dos homens na Terra que é a sua Casa Comum.

Recordar e assumir que a Europa é a matriz do Ocidente, e que, num mundo que se organiza por regiões, patamares da procurada governança mundial, essa definição deve ser estruturada, de modo que o Atlântico não seja dividido por metades, é uma necessária recusa de voltar à história de cada Estado europeu não ter Estados vizinhos, mas apenas inimigos íntimos. Recordar aos EUA e à Europa o olhar do Abade Correia da Serra, o amigo de Jefferson, quando via no Reino Unido de Portugal-Brasil o dinamizador no Sul dos anúncios de Filadélfia no Norte, tem nova definição política, mas a mesma exigência. A Europa região, matriz e dinamizadora do Ocidente, exige definição de governabilidade antes de qualquer expansão, fronteiras amigas na busca de segurança, política de multiculturalismo e não de apenas cosmopolitismo, fim das políticas furtivas, verdade em todo o processo político.

No que toca a Portugal, parece evidente que a debilidade da interioridade se agrava com a situação periférica que os economistas lhe atribuíram, e que os efeitos colaterais do desastre financeiro mundial tornam mais severa. A evolução para Estado exíguo está no horizonte, no caso de não conseguir uma recuperação suficiente para ultrapassar a crise. Pode acontecer que, também entre nós, esta degradação da economia e dos recursos estaduais faça despertar sentimentos de recuo em relação ao processo europeu e às obrigações na NATO.

Recordemos que Portugal sempre precisou de um apoio externo para sustentar o seu exercício na ordem internacional, com a Santa Sé logo na fundação do Reino, com a Aliança Inglesa ao longo de séculos, e finalmente com a adesão à Europa, sem outra escolha possível, depois do corte de 1974 com o conceito estratégico secular. Assim como partilhou o destino do império euromundista, também não lhe será possível deixar de partilhar as circunstâncias da Europa: podem mudar as políticas, e para tal seria indispensável que a participação cívica não se retirasse para a abstenção, mas a inscrição inevitável no processo europeu e ocidental não pode ser ignorada.

De resto, é difícil definir uma situação periférica em globalismo, e no caso é fácil reconhecer que Portugal, em vez de ser periférica em relação à Europa e ao Ocidente, está na articulação da segurança do Atlântico Norte com o Atlântico Sul, está na articulação de segurança do Mediterrâneo, possui a maior zona económica exclusiva da Europa. O Tratado de Lisboa, se for aprovado, promove a transferência da gestão dos recursos vivos dessa área para Bruxelas, de onde virão as directivas, e a interrogação inevitável sobre se Portugal tem capacidade para as cumprir: se Portugal não for ter com o Mar, o Mar virá ter com Portugal. Segurança, recursos, posição geográfica, história, definem uma circunstância europeia que aconselha o regresso urgente às inquietações de Garrett (Portugal na balança da Europa), actualizadas para o novo Milénio, em que a janela de África e da CPLP está aberta.

Finalmente, o discurso americano será dominante pelo que respeita à articulação da região Europa com o Espaço Ocidental, e a imprevisibilidade faz parte da circunstância.

Não é provável qualquer discurso político americano que não tenha como premissa o interesse permanente dos EUA, uma definição de conteúdo variável, para responder às conjunturas que se alteram, mas com referências inalteradas, até agora, designadamente a convicção de que é a nação indispensável. Uma das componentes mais desafiadas, pelas reformulações da polemologia, é a do tipo de relacionamento procurado, desde o big stich erguido em relação ao comportamento do sul do continente americano, às alianças temporárias, ao exercício do poder militar, ao diálogo orientado pela razoabilidade, mas sempre com vinculação à premissa do interesse permanente. Não é igualmente provável que o discurso de exercício do Governo, a partir da entrada na Sala Oval, tenha sempre coincidência com o discurso organizado para ganhar a eleição. Este último discurso é um exercício durante o qual é possível que o candidato não tivesse informação completa sobre a conjuntura real do Estado, e a sua primeira coerência imperativa é a de não se afastar da defesa do interesse permanente de que foi designado curador. Um dos riscos críticos da actuação de um governante, garante do rumo mais razoável de uma grande potência, é também não poder desvendar publicamente toda a gama de desafios, contradições, e ameaças que fazem parte da sua agenda. Um dos sinais mais denunciantes das contradições está nas frequentes e inesperadas dificuldades que enfrenta no relacionamento institucional com o Senado, dificuldades que apoiam o conceito de supremacia política da democracia, mas que diminuem a luminosidade de alguns dos compromissos eleitorais. À luz do direito internacional, da ética de comportamento de um regime democrático, e da urgente necessidade de restaurar o prestigio internacional americano, o anúncio do seu pensamento sobre o tema de Guantánamo não era de esperar que encontrasse as dificuldades que se depararam no Senado. Com todas estas reservas, que não esgotam todas as que é necessário ter presentes ao tentar avaliar o andamento da governação, é talvez possível enumerar, sem erro preocupante, alguns desafios que exigem atenção prioritária na agenda do Presidente. A reorganização do sistema financeiro global, um desastre que é imputado ao seu país, aparece como uma prioridade cujo atendimento é esperado pelos também afligidos restantes membros do G-20. Mas os problemas da paz, que herdou e existem há mais tempo do que o desastre financeiro, viram acrescentar a sua prioridade com os efeitos dramáticos sobre a vontade popular de continuar a apoiar os custos da área militar, sem esquecer a crescente convicção da falta de legitimidade que afectou o percurso da anterior Administração. Todavia esses riscos persistem, com evidência primeira para a proliferação das armas nucleares, seguindo-se o envolvimento no Iraque e no Afeganistão, e o perigo mal controlável do conflito de Israel com a Palestina. O discurso americano, que agora é responsabilidade de Obama, tem apontado para objectivos e métodos que anunciam uma possível atitude de atenção à opinião condenatória do unilateralismo anterior. Designadamente, o discurso feito no Cairo em 9 de Junho é um documento que exige meditação interessada, porque representa a conclusão de um pensamento responsável, por muito que mereça reservas e discordâncias de outras sedes. E o que parece menos apropriado, e pouco esclarecedor de uma opinião pública que tende para mundial, é insistir no exercício crítico dos supostos decisivos cem dias, que rotineiramente aparece a pontuar as discussões públicas e as análises de comentadores escutados. Talvez esta fixação nos cem dias tenha sido iniciada com a contagem da aventura final de Napoleão, teimosamente a tentar inflectir o seu destino, referência que não é seguramente uma previsão de futuros tranquilos. Sem contar os dias, mas com a opinião mundial atenta aos dias, a boa notícia é que continua a não ter acontecido o pior: mas o Ocidente, a região Europa, e Portugal, precisam de racionalizar o seu espaço, sem modelo prévio, para participar na reorganização da governança mundial pacífica.

Ergue-te na noite, despido de ti e do mundo! E canta uma vitória nua, sem vencidos, nem vencedores, nem testemunhas.

Sábado, 11 de Julho de 2009

O timorense Manuel Carrascalão morreu hoje


O importante político timorense Manuel Carrascalão morreu neste sábado aos 78 anos no hospital Guido Valadares, em Díli, vítima de complicações de saúde na sequência de uma embolia cerebral, conforme informou uma fonte de sua família à imprensa internacional.

Manuel Carrrascalão morreu às 14h30 de Lisboa (10h30 em Brasília) no hospital Guido Valadares, em Díli.

Carrascalão foi uma das principais figuras associadas ao processo de consulta popular em 30 de Agosto 1999, que conduziu o território à independência, após 27 anos de ocupação indonésia.

Além disso, ele liderou, após a votação, o Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT), a coligação independentista timorense, sucedendo ao atual presidente timorense, Xanana Gusmão.

Democracia racial? Por Ana van Meegen Silva

O Brasil se diz um país onde existe uma “democracia racial”, onde todos têm os mesmos direitos perante a lei. De fato não existe nenhuma lei no país que proíba o negro ou a pessoa de qualquer outra raça de participar de qualquer campo social existente. A lei n°. 7.716 da Constituição Federal considera crime qualquer ato de racismo. Mas isto não quer dizer que não exista um racismo que já está incorporado na maneira com que a sociedade brasileira esteja formada. Este é um racismo cultural, impregnado nas tradições brasileiras, passado de geração para geração através de ditos populares, anedotas e preconceitos. Não são poucas as vezes que se escuta no Brasil que “negro quando não caga na entrada, caga na saída”, frase utilizada para dizer que o negro nunca faz algo certo, que tudo o que faz será acometido de algum erro. Vários anúncios de empregos nos jornais pedem uma pessoa de “boa aparência”, o que significa não só que pessoas bonitas terão preferência, mas também que pessoas brancas serão mais bem-vindas.
Mas o que vem a ser racismo? Racismo é a inferiorização que se dá através da diferenciação entre raças (ou grupos de pessoas) de acordo com sua forma física, sua localização geográfica, sua língua ou suas tradições. Raça pode ser definida como um:“conjunto de indivíduos que tem em comum uma parte importante de seu patrimônio genético” (Jacquard 1980: 57). Gostaria de acrescentar nesta definição o patrimônio histórico-cultural que une um grupo, formando-se assim também uma raça. A definição das raças não foi feita por causa do desejo do ser humano de ver classificados e catalogados os diferentes grupos existentes, mas sim pelo desejo de mostar o quanto outros grupos no mundo são diferentes do grupo ao qual pertencemos (Jacquard 1980: 58). É daqui que nasce o racismo: desta tendência que todas as pessoas têm de atribuir um valor ao seu grupo ou a si mesmas, inferiorizando as outras pessoas ou raças (Jacquard 1980: 58), através de suas diferenças culturais e sociais.
O racismo no Brasil iniciou-se com a escravidão. Vê-se que o preconceito racial existente nas comunidades que apresentam um certo nível de pluralização de raças, isto é que há convivência de diversas raças dentro do mesmo grupo, só se dá com relação à raça negra. O negro chegou como mão-de-obra gratuita, isento de sua liberdade; enquanto que outras raças vieram como colonialistas, pessoas que saíram dos seus países para povoar e fazer o Brasil progredir. No início da colonização brasileira o negro era visto como o ser não-europeu (Guimarães 1995a: 36), o ser não-cristão. Os índios nesta época também eram chamados de negros, levando as duas raças o mesmo tratamento. Hoje vemos que o índio urbano, adaptado à vida da cidade[8] não sofre mais discriminação. Racismo só se dá contra o índio que não está adaptado os costumes do grupo elitário (os brancos), principalmente aqueles que vivem em seu habitat natural, considerados como selvagens e primitivos.
Depois da abolição negra, chegam ao Brasil novos imigrantes vindos não somente da Europa, mas também do Líbano, Síria e Japão. Estes imigrantes trouxeram novos hábitos culturais, mas nem por isso foram discriminados como o negro. Os japoneses, por exemplo, constituem uma raça bem distinta, com características físicas distintas dos brancos assim como a raça negra, constituindo um grupo fechado dentro da comunidade pluritária, com seus próprios hábitos e costumes. Eles distinguem-se atualmente dos outros brasileiros por levarem os nomes de “japoneses” ou “nisseis”, mas não são discriminados (Guimarães 1995a: 40). Isto confirma mais uma vez a relação que a discriminação racial no Brasil tem com a escravidão ocorrida na época da colonização do país. Os povos que foram utilizados como mão-de-obra gratuita na época continuam sendo discriminados atualmente (uns mais, outros menos), enquanto que isto não ocorre com outras raças que vieram mais tarde na forma de imigrantes independentes.
No final do século dezenove, chegam ao Brasil as teorias racistas européias que afirmam que não existe uma raça superior a européia ou raça ariana (Agier 1995: 249). Os brasileiros liberais e intelectuais se surpreendem com tal afirmativa por saberem que o Brasil, um país constituído de tantas raças e cores diferentes nunca poderá atingir esta qualidade superior! Mas o brasileiro sempre arruma um jeitinho para burlar a regra e surge então a teoria do “embranquecimento”, que consiste na afirmação de que a raça negra brasileira se extingurá com os anos em vista do grande número de mortalidade infantil entre os negros e a falta de organização social entre eles, adicionando-se o fato de que os negros iriam preferir casarem-se com os brancos e, por serem os genes brancos mais fortes, as crianças seriam cada vez mais claras (Agier 1995: 249-51). Não só adquiririam assim a pele branca como herança, como também a inteligência desta raça “superior” (Pierson 1971: 182 em Agier 1995: 250).
Este discurso tornou-se muito popular entre nacionalistas e liberais, incutindo-se na idéia de toda a população. Atualmente ainda fala-se em “limpeza” ou “melhoramento de raça” quando um negro casa-se com um branco (Pierson 1971: 182 em Agier 1995: 250). A pesquisa da antropóloga norte-americana France Winddance Twine na cidade de Vasália no Rio de Janeiro comprova que afro-brasileiros não são conscientes da discriminação racial que estão passando, justificando a sua situação social ao fato de serem “menos inteligentes” que os brancos e que “não sabem mexer com dinheiro” (Twine 1998: 77). Negros preferem brancas por acharem as negras “feias” (Twine 1998: 57). Porém quem foi que criou estes estereótipos culturais do que é bonito e o que vem a ser feio senão a elite branca? Assim como na discriminação indígena que se dá principalmente quando esta raça manifesta a sua cultura, vemos que a elite branca que domina a sociedade brasileira em todas as suas dimensões (política, social, cultural e religiosa) é que determina a cultura da sociedade, elevando-a na relação com outras formas de expressão cultural. Tudo aquilo que diverge da cultura ideológica da raça branca é marginalisado através de manifestações preconceituosas que degridem a imagem da outra cultura. Isto ocorre com as religiões afro-brasileiras que são vistas como religiões que praticam a magia negra associadas com o diabo.
Outro fato que comprova a falta de percepção da população afro-brasileira em relação ao racismo é o fato deles acreditarem que este ocorreu em outro tempo (na época da escravidão) ou em outro espaço (nas cidades grandes ainda existe, mas aqui não) (Twine 1998: 79-81). Isto significa que os afro-brasileiros no estudo de Twine acreditam que manifestações racistas não ocorrem dentro de sua comunidade, atribuindo as suas características a outros tempos e lugares. Eles acreditam na existência do racismo e sabem como este se manifesta porém não conseguem ligar estas características com o que ocorre dentro de sua própria comunidade. Isto não ocorre na comunidade kalunga. Os kalungas não gostam que as sociedades vizinhas os chamem de preguiçosos e feiticeiros, e tentam desmascarar estes preconceitos conversando com pessoas “de fora” sobre o assunto. Isto mostra que para esta comunidade o preconceito racial acontece dentro do seu espaço e tempo. Talvez esta diferença entre as duas comunidades se dê porque a comunidade kalunga, depois da luta pela posse de suas terras se conscientizaram de seus direitos como cidadãos e resolveram lutar pelos seus direitos, o que não ocorre em Vasália, onde as pessoas tentam explicar o porquê que certas coisas ocorrem como elas são, ao invés de tentar modificá-las.
Na comunidade de Vasália, o negro é pobre por causa da desigualdade de classes. A existência do branco pobre comprova para os negros da região de que não existe racismo (Twine 1998: 70). A própria existência da mistura das raças, através do casamento, comprova para eles que não existe discriminação (Twine 1998: 74). São estes fatos que fazem com que o negro da comunidade de Vasália se acomode em sua situação. Na comunidade kalunga não existe a convivência de raças dentro da própria comunidade. A comunidade kalunga é constituída por negros[9]. Isto aumenta a diferença entre “nós” (os negros kalungas) e “eles” (os brancos de fora), aumentando assim a consciência de que existe uma diferença entre este grupo étnico e outros grupos da vizinhança. A localização geográfica da comunidade também contribue para a diferenciação com as comunidades vizinhas: o difícil acesso dificulta as relações entre eles, isolando a comunidade socialmente. Mas o caso kalunga é uma excessão à regra, devido aos motivos relacionados acima (posse de terras, constituição negra e localização geográfica). A maioria dos afro-brasilerios se encaixam na análise de Twine, mostrando uma sociedade com uma forte ideologia racial, onde nem as pessoas que são discriminadas estão conscientes de sua discriminação. De acordo com Hanchard esta ideologia racial consegue esconder do negro a sua própria negritude (Hanchard 1994 em Ferreira da Silva 1998: 222-3). Esta ideologia é propagada através dos meios de comunicação social, que escondem o negro como fator produtivo da sociedade, só mostrando ele quando se fala em situações desconcertantes como pobreza e criminalidade. A ideologia racial iniciou-se com a escravatura dando-se desta forma o processo de aculturação do negro no país, uma aculturação forçada, que leva o negro a agir de uma forma subordinada e segundo os interesses da classe opressora (Ianni 1988: 78).
O racismo brasileiro é sútil. Apesar de ser uma ideologia institucionalizada, o racismo se encontra no plano famíliar, na rua, nas relações pessoais. Ele não dá chances para o negro de conseguir um bom emprego porque exige uma “boa aparência” que o negro não tem por ser “feio” nos moldes da ideologia racial. Hoje no sul e sudeste do país não se comenta que o “negro é burro” ou que o “negro é preguiçoso” como se falava na época da colonização sobre os africanos e os indígenas. Atualmente é comentado nestas regiões que o nordestino, o bahiano e o paraibano é que são “burros” e “preguiçosos”. Sabendo-se que 80% da população bahiana é constituída de negros, podemos chegar a drásticas conclusões. No Brasil não se houve falar em racismo. Ele está implícito na prática de todos os cidadãos, brancos e negros, uns por agredirem e outros por aceitarem tal agressão. A ideologia racial está tão implícita na estrutura cultural brasileira que parece ser irreversível.
Tal racismo encontraremos também na região onde situa-se o quilombo dos Kalungas. Vemos vários fatores citados acima retornarem na relação dos kalungueiros com seus vizinhos. Os kalungas são tratados pelas comunidades vizinhas como sendo “sujos”, “porcos”, “preguiçosos” e “feiticeiros”, pricipalmente pelas pessoas brancas e com uma certa posição social na comunidade. De negros que moravam na cidade já escutava coisas positivas sobre os kalungas, como por exemplo, que eles faziam uma boa farinha de mandioca, melhor do que as compradas nos armazéns. Vemos aqui que estes atributos que são dados à comunidade kalunga, fazem parte de um preconceito racial. As pessoas usam estereótipos culturais para denominarem os kalungas. Estereótipos podem ser defenidos como “representações cognitivas sobre um outro grupo que pode influenciar o nosso sentimento com relação aos membros deste grupo” (Gudykunst e Kim 1997: 112). Estes estereótipos vêm da sociedade brasileira, onde o negro é visto como preguiçoso (usado com frequëncia como desculpa para se empregar uma pessoa branca ao invés de uma pessoa negra). O termo “feitiçaria” vem do medo que as pessoas têm até hoje das religiões afro-brasileiras, onde são feitos “trabalhos de despajo” em pró ou contra alguém.
Os kalungas apesar de estarem conscientes de seus direitos como cidadãos, aceitam estes estereótipos como sendo verdadeiros, mostrando assim o quanto a ideologia racial está impregnada na cultura brasileira de um modo geral. Ao invés de criticarem estes termos ou assumi-los como verdadeiros (os kalungas acreditam em feitiçaria), eles fazem de tudo para mudar esta imagem, espelhando-se nos valores culturais das comunidades vizinhas e tentando imitá-los em sua forma de atuação. Este fato esté mudando os valores culturias da comunidade drasticamente, como veremos na segunda parte deste estudo.

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TEXTO DE ADRIANO MOREIRA PARA A NA 4...

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EUROPA, A MATRIZ DO OCIDENTE (II)

De facto, a queda do Muro, fazendo desaparecer a ameaça, imediatamente teve o efeito natural de afectar o conceito estrutural das Duas Europas. Não foi sem embaraços que, na Cimeira de Copenhaga de Junho de 1993, se decidiu que “os países associados da Europa Central e de Leste que o desejem tornar-se-ão membros da União Europeia”.

Todavia, com o processo da Europa livre a desenvolver e fortalecer a sua estrutura, com o Acto Único de 1987, a marcha para a livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas, passando por Maastricht em 1992, e por Amesterdão em 1997, com a moeda única para entrar em circulação em 1999 e suposta à prova de inflação, com o princípio da subsidiariedade a animar os mais resistentes, a União foi adiando a incorporação do leste, com preocupações económicas a orientar a prudência. Quando a negociação terminou, o acquis communautaire descrito em 97.000 páginas, depois de 15 anos de espera, condicionava os códigos de governo dos novos membros.

A combinação destes factos implicou com a estrutura política, porque não se conhece nenhum estudo de governabilidade que tenha precedido o alargamento e daqui o Tratado de Lisboa, que ainda espera condições para entrar em vigor. O facto de o grupo de trabalho que elaborou a primeira versão se ter considerado constituinte, escrevendo no texto que os povos europeus lhe agradeciam a doação de tal benefício, ao mesmo tempo que mais uma vez demonstrava o uso da política furtiva, e a arrogância do aparelho, também detectou resistências até hoje não vencidas, não obstante as alterações cosméticas de que foi objecto. Mas que a política furtiva é um severo risco para a saudável evolução da União teve aqui um aviso que dimensões alarmantes de abstenção nas eleições correntes sublinharam.

Por outro lado, o alargamento da NATO, e a mudança de conceito estratégico que abandona a fronteira terrestre a favor da fronteira dos interesses, coincidiu com o retorno da visão americana da europeização da defesa, que o Tratado de Lisboa considera na versão do seu pilar específico da segurança e defesa.

Convém recordar que se os EUA assumiram a defesa atlântica em 1949, foi sem esquecer que o oceano do seu destino histórico é o Pacífico. Mas de facto não foi apenas o valor da integridade territorial que esteve em causa, também a concepção do mundo e da vida ocidentais, também a protecção da dignidade dos povos, sabendo que o avanço da URSS implicava a imposição do poder e da ideologia soviética: a noção de que a ameaça era globalmente contra o Ocidente foi assumida, sem ignorar, porque as lutas pela hegemonia no antigo resto do mundo colonial não o deixaram esquecer, que todos esses povos, como diagnosticou Toynebee, consideram os ocidentais como os grandes agressores dos tempos modernos.

A primitiva aproximação à europeização da defesa teve apenas em vista uma nova repartição de encargos, com fundamento na recuperação económica da Europa. Agora, sendo suficiente esclarecimento a Declaration on Alliance Security dos Chefes de Estado e de Governo reunidos em Strasburg / Kehl em 4 de Abril de 2009, trata-se de um alargamento da Aliança inspirado pela Europe Whole and free, para recolher todas as democracias wich share the values of our Alliance.

Trata-se, em síntese, de: 1) assegurar a segurança e defesa das populações, território e forças dos aliados; 2) aderir aos princípios da ONU, e suas iniciativas; 3) cooperar com a União Europeia, a OSCE – Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, e com o Conselho da Europa.

A questão emergente abrange pelo menos estas exigências de racionalização: 1) definir claramente a legitimidade internacional do novo conceito estratégico, que implica intervenções, fora do mandato da ONU, sempre que a fronteira dos interesses for atingida; 2) racionalizar a relação da União Europeia com a NATO. Este último ponto resulta do facto de a Aliança ser um tratado entre Estados sem veto, mas a União Europeia não está na Aliança: estão ali Estados europeus, o que implica, de facto, a União Europeia a negociar consigo própria.

Por isso, o general Colin Powell, em entrevista recente, reconhecendo que os EUA não podem continuar a sustentar o unilateralismo, que o fim da guerra fria permitiu que os membros da NATO passassem de 16 para 26, concluiu que o diálogo dos seus membros é com os europeus – e com os EUA e o Canadá.

O efeito desagregador que o unilateralismo de Bush teve no Conselho de Segurança, na NATO pela divisão de opinião, e na Europa pelos alinhamentos diferenciados no caso do Iraque, tem presença nesta conclusão do general.

Por seu lado, o Presidente Obama, no recente discurso do Cairo, avançou este conceito estratégico: apaziguar o cordão muçulmano, salientando que “o Islão é parte dos EUA”; um ponto final rápido no Afeganistão e no Iraque; resolução do conflito Israel-Palestina; admitir que nenhum Estado pode impor a democracia a outro, nem decidir que Estados podem ter armas nucleares: a União Europeia não é referida, a NATO não foi mencionada.

(...)

Lusofonia: Cultura ou Ideologia?

Prof. Doutor Lourenço Rosário
Reitor da Universidade ISPU de Maputo
texto publicado no Jornal Notícias de Maputo (Moçambique),
Quarta-Feira, 6 de Junho de 2007

Normalmente, quando se utiliza a expressão "Países Lusófonos" a referência imediata são os países africanos que têm o português como língua oficial e que, por circunstâncias históricas foram colónias de Portugal, tendo ascendido à independência na década de 70 do Século XX. E por extensão, já mais tarde, Timor-Leste. Normalmente é senso comum que o Brasil e os brasileiros não são incluídos neste conjunto, muito menos Portugal.

Ora, se no plano empírico as coisas assim se passam, é porque, do ponto de vista desse senso comum, algo se cristalizou a partir de um jogo de aproximações semânticas que nos remetem à teoria de conjuntos. Quando em 1988, Itamar Franco se reuniu com os seus homólogos em São Luís do Maranhão, o encontro não se designou Lusófono, mas sim dos Países de Língua Portuguesa. Assim, também as bases para a constituição de uma comunidade constituída por esses países também não adoptou o nome de Comunidade Lusófona, mas sim Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP. Este é o primeiro ponto que coloco à reflexão e discussão.

Por que razão é que, do ponto de vista oficial, na diplomacia e na cooperação multilateral, jamais o termo lusófono foi adoptado? E por que razão é que a nível do discurso político, sobretudo na relação entre o olhar de vários segmentos da sociedade portuguesa, este termo tem vindo a ser consagrado como sendo o de maior utilidade para identificar os espaços e as gentes que historicamente já estiveram ligados a Portugal, sobretudo.

Marcelo Rebelo de Sousa esteve recentemente em Moçambique, no âmbito de cooperação académica entre as universidades portuguesas e moçambicanas. Ele escandalizou meio mundo ao, pela primeira vez, assumir a postura muitas vezes pronunciada em surdina de que havia que resgatar o lado bom do colonialismo, fazendo justiça àqueles que, embora servidores do sistema, conseguiram dar-lhe um rosto humano. E chocou, porquê? Na justa medida de que, para nós, é um dado adquirido de que o colonialismo é sempre mau para quem o sofreu e é sempre bom para quem dele beneficiou. Esta mistura de águas, publicamente assumida num País que foi colónia até há pouco mais de trinta anos, vem demonstrar que muitas contas estão ainda por fazer para nos entendermos no mundo dos conceitos.

Para isso é que servem as discussões. Levanto esta questão do pronunciamento de Marcelo Rebelo de Sousa para remetê-la à problemática do mito do império que habita o imaginário cultural e ideológico dos portugueses desde o Século XVI.

Independentemente da postura partidária de quem quer que seja e que pode enformar o discurso, hoje na essência, a questão permanece inalterável. O destino dos portugueses é plasmar o seu ser nos quatro cantos do mundo. A história, em parte, confirma isso, na medida em que, a partir do século XV, Portugal tornou-se numa grande potência mundial, presente em todos os continentes, fazendo-se respeitar e fazendo com que a sua língua se tornasse na língua franca nos meandros da economia, do comércio e da diplomacia. Mesmo com o enfraquecimento do estado português e consequente desaparecimento desse poderio real, os portugueses interiorizaram esse desígnio de grandeza histórica que lhe não permite ser contido naquele pequeno rectângulo que constitui o seu território.

O LUSOTROPICALISMO

A versão moderna do mito do quinto império é ensaiada através das teorias Lusotropicalistas sistematizadas por Gilberto Freyre, que, do meu ponto de vista, são bem mais antigas, as quais aparecem em alguns pronunciamentos, principalmente nos debates sobre a questão ultramarina, no Século XIX, um pouco por consequência da independência do Brasil.

O Lusotropicalismo não é somente uma teoria sociológica. Quanto a mim, uma tentativa de dar rosto científico a um pressuposto ideológico. Por isso os estrategas do Estado Novo acolheram com muito entusiasmo o discurso lusotropicalista. Constituída a primeira machadada na herança sonhada, criada e deixada por Dom João II.

Quero lembrar aqui, que pouco tempo antes e não por mera coincidência, Gilberto Freyre fora hóspede convidado de Salazar, naqueles territórios, foi buscar mais subsídios para consubstanciar as suas teorias lusotropicalistas, ido de Cabo Verde.

Nessa mesma década, a de 60 do Século XX, os movimentos nacionalistas de Angola, Guiné Bissau e Moçambique iniciavam a Luta Armada de Libertação, designada inicialmente por Salazar de campanhas de África contra o terrorismo, baptizada depois de campanhas contra o comunismo, por Marcelo Caetano, e Guerra colonial, após o 25 de Abril. Até meados de 70 do Século XX e no limiar das independências das colónias africanas, jamais alguém utilizou o conceito lusófono ou lusofonia para se referir ao que quer que fosse.

Esta é a segunda questão que ponho à discussão. Por que razão é que só depois das independências emerge de uma forma evidente este conceito?

A década de 60 do Século passado é conhecida por década de África. A maior parte das colónias africanas da Grã-Bretanha e França tornaram-se estados independentes na primeira metade dessa década. Os interesses políticos e sobretudo económicos fizeram com que as ex-potências coloniais desenhassem uma estratégia de continuidade com outra roupagem. Quer isto dizer que ao colonialismo clássico se seguia o panorama neocolonial. E uma das configurações que esse novo modelo tomou foi o de comunidade linguística.

Assim nasceram as com